Porque a Mulher Maravilha não é tão maravilhosa assim para mulheres negras

Porque a Mulher Maravilha não é tão maravilhosa assim para mulheres negras

Um estereótipo de 70 anos volta à cena

Enquanto o resto do mundo está ficando louco com o filme da “Mulher Maravilha”, dentro de mim estou me contorcendo por causa da mensagem sutil escondida nesse filme. Mulheres brancas só podem ser homenageadas como “super-heroínas” incríveis, maravilhosas. Por mais setenta e tantos anos, as meninas negras ou não-brancas vão continuar recebendo a mensagem que eu recebi. Quando eu comecei a pensar que finalmente as mulheres negras encontraram sua voz, um lugar para se encaixar, um lugar para se destacar, aqui vem a Mulher Maravilha – essa alienígena que vem ao planeta Terra disfarçada de mulher branca perfeita e poderosa.

Desde o momento em que começaram as exibições deste filme, eu fiquei indignada, e não pelas razões que algumas feministas podem achar esse filme ofensivo. Primeiro, porque, como a maioria das meninas negras que cresceram na década de setenta, fiquei traumatizada por essas super-heroínas que representavam apenas uma parte das mulheres maravilhosas que havia no mundo, e ainda assim dominavam o imaginário de todas as garotas sobre o que uma mulher incrível representava. Eu também fiquei com raiva porque logo agora que eu achava que esse estigma de mulheres brancas maravilhosas tinha pulado a geração da minha filha, surpresa!, aqui está ela de volta, para assombrar a geração até das minhas netas. A indignação que senti me fez fazer mais do que questionar por que esse estereótipo de setenta anos surgiu. Isso me levou a questionar onde estavam todos as super-heroínas negras?

Onde estão as super-heroínas negras?

Comecei minha busca primeiro procurando todas as chamadas “super-heroínas negras”, ou pelo menos aquelas que supostamente representavam a superioridade das mulheres negras. A primeira super-heroína negra que encontrei foi a Tempestade dos X-Men, e, mesmo sendo fabulosa, seus super-poderes não eram comparáveis aos da Mulher Maravilha. Eu decidi cavar um pouco mais fundo e ir tão longe quanto a criação da Mulher Maravilha, o que aconteceu no início da década de 1940, e encontrei a lendária “Cat Woman”, que novamente, embora fosse bonita e feroz, não era tão “maravilhosa” assim. Na verdade, ela já foi interpretada em alguns casos como uma vilã. Eu me perguntei: “Onde estavam todas as super-heroínas negras?”. E por que elas não eram comparáveis com a super mulher branca amazônica que atormentou e poluiu a identidade de tantas meninas negras?

Eu decidi deixar o mundo de quadrinhos e olhar para o mundo real, depois de a DC trazer a Mulher Maravilha das páginas de uma história em quadrinhos para um filme da vida real, então talvez eu devesse começar minha pesquisa por aí. Novamente, não encontrei nada ou nenhuma mulher não-branca que pudesse comparar. Parece que todas as personagens femininas negras eram ausentes ou piores; mal retratadas, ou retratadas através de estereótipos preconceituosos e não como heroínas belas e inteligentes.

"A Mulher Maravilha é uma personagem perigosa para as mulheres negras porque ela representa um estereótipo que diz que as mulheres negras não são realmente tão incríveis quanto ela."

A Mulher Maravilha é uma personagem perigosa para as mulheres negras porque ela representa um estereótipo que diz que as mulheres negras não são realmente tão incríveis quanto ela. Nada nela se parece com você, exceto talvez pela cor de seus cabelos. Nem o corpo, nem a cor dos olhos, nem a cor da pele. O fato de ela vir de outra dimensão ou planeta para a Terra e simplesmente se misturar entre os humanos justamente como uma mulher branca era perturbador para mim. Sendo assim, ela podia ser considerada “super”, “adequada” para se misturar entre os humanos, e até ser considerada “fraca” às vezes, em relação aos homens, porque as mulheres brancas também são retratadas como vítimas em uma cultura mais ampla, precisando ser “salvas” por cavaleiros brancos.

Então, comecei a pensar sobre as qualidades e as características do verdadeiro herói ou heroína que vejo todos os dias, começando com minha avó e terminando com minhas filhas. Primeiro, elas vêm desse planeta e vivem aqui. Eu acredito que, para representar uma super mulher na Terra, você deveria antes de tudo, ser deste planeta. Então eu pensei sobre a mãe da criação, “Eva” ou “Lucy”, quem até mesmo a ciência ensina que tenha surgido na África como a primeira mãe de toda a humanidade. Por fim, uma verdadeira super mulher sempre se levanta de novo, não importa o que apareça no seu caminho: racismo, machismo, opressão, escravidão, agressão, ódio.

Estas são as qualidades que tornam alguém um ser super-poderoso para mim, e alguém que, obviamente, assusta a sociedade, porque atiram tudo contra ela para joga-la para baixo, assim como fazem com qualquer super-herói. A sociedade em geral tenta encontrar a “kryptonita” da mulher negra apenas para joga-la para baixo. Eles usam nossos cabelos crespos, nossos lábios grossos, quadris largos e nossa pele escura contra nós para nos deter. Apesar disso, contra todas as probabilidades, ainda nos levantamos, como super-heroínas.

Depois que eu fiz minha lista de super qualidades, então algo meio à minha cabeça: talvez a Mulher Maravilha não fosse tão maravilhosa assim. Talvez as mulheres negras não precisem ser retratadas em uma história em quadrinhos ou uma tela de cinema como super-heroínas porque todos os dias demonstramos qualidades e características de verdadeiras super-heroínas. Talvez algumas pessoas precisem criar histórias sobre como serem “super” quando estão para baixo e não se sentem tão “super”.

Eu daí eu pensei que talvez seja ok para eles perpetuar sua história sobre a sua super-heroína de outro planeta, desde que nós, mulheres negras, não se esqueçamos quem nós realmente somos. A Mulher Maravilha pode, de fato, ser maravilhosa, mas ela simplesmente não tem o que é preciso para ser a verdadeira heroína que nós somos. E eu nem acho que ela teria o que é necessário para sobreviver neste planeta Terra contra forças realmente malígnas como as que existem contra nós. Só verdadeiras super-heroínas podem se opor a algo assim.


Collette Gee, autora de um livro inovador sobre relacionamentos entitulado “Finding Happily… No Rules, No Frogs, No Pretending” (disponível na Amazon). Collette é uma sobrevivente da violência doméstica e vítima de outras violências, que usou sua experiência traumática como um catalisador para capacitar e empoderar mulheres através de uma educação positiva sobre relacionamentos saudáveis. Você pode se conectar com Collette em seu site: findinghappily.com e no Twitter @Findinghappily

Este artigo foi publicado originalmente no Huffington Post South Africa.

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