Foto: Agência Brasil Do Complexo do Alemão ao Espírito Santo: o genocídio do povo negro é um projeto em execução

Do Complexo do Alemão ao Espírito Santo: o genocídio do povo negro é um projeto em execução

Por Jota Marques

Eu evitei sinceramente escrever a respeito, porque “comparações” quando mal-intencionadas, distorcem e confundem a realidade e, invalidam dores. Mas hoje a “desgraça” novamente brindou a manhã na Cidade de Deus e, a minha intenção segue sendo apenas a reflexão.

Por isso, eu preciso dizer: o que o Espírito Santo vive/enfrenta há alguns dias e, eu tenho certeza que acabará em breve, mesmo que com resultados catastróficos, as favelas cariocas respiram há décadas e não acabará tão cedo.

Tanto o caos generalizado em decorrência do abandono do Estado, quanto a violência em nossas portas, o medo das ruas, o derrame de sangue do povo pobre, sobretudo preto.

E, meus caros, também com o esquecimento das mídias, com a cobertura, quando existente, comprada e preconceituosa… que reforça, dia após dia, que os nossos corpos à margem, quando mortos, mereceram; portanto toda a violência contra nós, o povo periférico, é justificada.

Além do mais, no RIO, há uma diferença significativa: enquanto os Capixabas sofrem com a violência da “falta” de policiamento, os Cariocas sentem a violência com o “excesso” de policiamento, diga-se de passagem, estrategicamente inconsequente.

Que
é racista
é elitista
é genocida.

Considero justo dizer, nesse momento, que, parte específica do Espírito Santo também sobrevive há décadas diante da violência, mas, à margem. E quando digo isso, desejo provocar: o povo pobre-preto é perseguido, marginalizado, violentado, escravizado e assassinado todos os dias, em todas as regiões do país e, do mundo.

Trata-se de um projeto construído pré-abolição! Sendo assim, quando a abolição, enfim, “aconteceu”, como era de se esperar, com, várias, vírgulas, a população negra historicamente violentada, foi abandonada e despejada à própria sorte — ou azar…

despejadas feito “lixo não reciclável” no caos do mundo, marginalizadas como a escritura pede; subprodutos esquecidos em prateleiras de um mercadinho vagabundo.

Nenhuma lei e, foram muitas, construiu qualquer ambiente que
permitisse a progressão do povo negro escravizado pós-abolição.

Muito pelo contrário, todo o projeto construía a manutenção secular dos privilégios burgueses quando, então, não pudessem mais “legalmente” escravizar.

Nenhum tipo de reparação, nenhum tipo de indenização, nenhum tipo de condição, nenhuma terra: N-A-D-A.

Ainda que nenhuma moeda fosse o bastante para indenizar todo o povo por todos os danos… agora, levavam “uma carta” debaixo dos braços, mas não podiam cultivar porque não tinham terra e não tinham terra porque não tinham dinheiro para comprar do estado — que poderia, mesmo assim, jamais vendê-la para um “ex-escravo” – falo da Lei de Terras, de 1850. Escrevo sobre ela aqui (https://goo.gl/gtn80E)

Já fora das fazendas, aqueles que decidiram pelo forçado acaso, seguiram em condições degradantes, novamente dependentes de “trabalhos” insalubres, sobrevivendo à fome e incertos em meio ao desabrigo, da cruel desigualdade, da violência e ganância dos homens.

O desabrigo dos sujeitos à margem e a eterna submissão do povo negro não é um mero acaso.

Quando então a realidade “grita” aos nossos olhos?

Quando, no Espírito Santo, a violência chega aos ditos “cidadãos de bem”, também moradores dos bairros mais nobres. E, no Rio de Janeiro, o mesmo; ou basta que entremos em um ônibus em direção à praia ZonaSulense.

Dito isso, políticas públicas de segurança existem para quem?

Com ou sem Polícia Militar, no Espírito Santo, ou no Rio de Janeiro, as massas seguirão à margem dos acessos à justiça e da dignidade da pessoa humana. Portanto, distantes de uma vida que não seja pautada em “sobrevivência”.

Ao refletirmos, mas eu não pretendo alongar muito mais, também precisamos repensar e problematizar as nossas vigentes políticas públicas sobre drogas; quem lucra?, a relação estreita entre o estado/a polícia militar/as forças armadas e o crime organizado, como funciona?, não falo somente das facções, mas também dos grupos de extermínio, as milícias e os criminosos do alto escalão; políticos de todos os tipos, é preciso que reflitamos a questão racial/social/classes com maior intensidade e afinco também. Porque se tudo é um projeto e, eu acredito nisso, podemos de que forma construir um novo?

Por fim, hoje (09), na Cidade de Deus, minha família e eu acordamos literalmente saltando da cama. Minha namorada e eu corremos para o quarto da minha mãe amedrontados, porque os sons dos tiros em nossa rua pareciam invadir a casa… estamos bem, mas eu não posso dizer o mesmo de uma parede, de um carro, da casa “furada” do meu vizinho.

Eu também não posso dizer nada a respeito da nossa estrutura psicoemocional diante de tantos medos, traumas e horrores.

Porque diante dessa realidade, eu não pude ir trabalhar e, diversas instituições não abriram e professor algum deseja vir lecionar. Um projeto, portanto, não?

Enjaulam a comunidade, impedem a sua liberdade, destroem a possibilidade de construção de identidade/autonomia, apagam a nossa historicidade, cultura e conhecimento… limitam a nossa progressão e, com isso, conquistam o apagamento dos nossos sonhos, projetos e desejos.

Cabendo ao jovem, agora, sem perspectiva, sem identidade e outras referências, absorver o que está diante de seus olhos, a violência. Perpetuando, então, o pobre e o preto em “seu devido lugar”.

Pois saibam também, que o Complexo do Alemão, há pelo menos 1 semana, sofre com a violência da “guerra às drogas” e outros fakes-motivos, com operações violentas da PMERJ vocês ouviram falar? As mídias noticiaram? E quando falaram sobre, disseram que eles transformam as casas de moradores em “base estendida”, que há diversos moradores relatando violência sofrida, roubos e expulsões?

… chega.

Meu caro, Espirito Santo, terra em que vivi por 8 anos e que construiu significativamente o caminho que sigo hoje, eu sinto contigo todas as dores.

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