LGBTs negros que criaram gangue armada para se proteger tentam deixar vida de violência para trás

LGBTs negros que criaram gangue armada para se proteger tentam deixar vida de violência para trás

“Se ninguém vai nos defender, nós vamos nos defender por nós mesmos. Você vai bater ou você vai apanhar?”

Quando se é uma pessoa negra, o racismo, apesar de monstruoso, não é a única opressão a que você estará submetido. Ser mulher, LGBT ou pobre, vai te trazer outras cargas de sofrimento. Quando o racismo se mistura com tudo isso, essas opressões se tornam um pesadelo ainda maior e pior que te seguirá de alguma forma por toda sua vida. Essa é a realidade de um grupo de jovens gays e transexuais de 14 a 22 anos de Washington DC, EUA, que decidiram formar uma gangue armada como forma de se proteger da violência que sofriam, e hoje tentam deixar essa realidade para trás através da moda. Suas histórias são contadas no documentário “Check It”, que leva o mesmo nome da gangue e é dirigido por Dana Flor e Toby Oppenheimer.

Ser negro e abertamente gay em uma das partes mais pobres de Washington nunca foi fácil. Travon Warren (conhecido como Tray), de 24 anos, falou à MTV News em entrevista no ano passado sobre algumas de suas memórias mais duras como vítima de homofobia. Ainda quando estava na quinta série, Tray entrou em uma briga com outro rapaz que o insultava frequentemente pelo fato de ele ser gay. Dessa vez, o rapaz correu para casa, e a briga parecia ter acabado. Mas, infelizmente, não foi assim. “Ele voltou para a escola trazendo uma arma para me matar“, conta Tray. “Foi muito assustador. Eu poderia ter perdido minha vida naquele dia.”. Esse ataque homofóbico não terminou pior, mas essa situação, de tão traumática, foi um ponto de virada na vida de Tray.

“Ele voltou para a escola trazendo uma arma para me matar”

Sabendo que esses ataques eram muito frequentes não só para ele, Tray se juntou com 15 outros amigos LGBTs para formar a Check It, que acredita-se ser a única gangue dos EUA formada exclusivamente por LGBTs para se proteger. Para muitos desses jovens, que foram expulsos de casa por sua sexualidade, a Check It tornou-se sua única família. Em 10 anos, a gangue já conta com aproximadamente 200 membros e se tornou famosa em Washington por revidar ataques homofóbicos usando golpes físicos, socos-ingleses e facas. Em todo esse tempo, muitos já foram parar na prisão, incluindo Tray, que já foi preso e já esteve em liberdade condicional. “Se ninguém vai nos defender, nós vamos nos defender por nós mesmos. Você vai bater ou você vai apanhar?”, diz um dos jovens do grupo.

 “Se ninguém vai nos defender, nós vamos nos defender por nós mesmos. Você vai bater ou você vai apanhar?”

Mas ao mesmo tempo em que tem orgulho de mostrar que gays e transexuais podem se proteger, os membros da gangue acabam se afundando ainda mais em uma vida de violência, se envolvem em muitas brigas e passam a cometer alguns crimes. Porém, esses jovens viam o grupo como única saída. Eles eram as primeiras vítimas de violências que eles, depois, apenas reproduziam contra outras pessoas ou contra eles mesmos. Um assistente comunitário da região e ex-presidiário, Ron “Mo” Moten, que agora acompanha e orienta alguns membros do grupo, conta ao portal Advocate que, para eles, “o uso de drogas é um mecanismo de auto-defesa. Serve mais para curar sua dor, para tentar fazer esquecer essas memórias ruins que eles carregam diariamente”. Boa parte dos membros foram expulsos de casa pelos pais, vivem na rua, não tem uma fonte de renda e são levados a roubar ou a se prostituir para conseguir sobreviver. Quando esses adolescentes sofrem algum tipo de abuso, como estupro, eles tem medo de denunciar, pois nunca sabem se receberão assistência ou mais violência por parte da polícia, por serem negros e LGBTs. E isso é só uma parte dos problemas desses jovens que também enfrentam várias tentativas de suicídio e uma taxa exorbitante de contração de HIV e outras DSTs, entre outros problemas de saúde.

Agora guiados por “Mo”, alguns desses adolescentes tentam entrar no mundo da moda. Ainda que as brigas de gangues, o tráfico de drogas e o roubo ainda sejam uma realidade, o documentário “Check It”, lançado em abril no Festival Tribeca (Nova York), mostra a tentativa de alguns deles de criar sua própria marca de roupa, os levando a eventos de moda e dando a eles a oportunidade de desfilar nas passarelas, como uma forma de expandir seus horizontes e afasta-los da violência das ruas. O doc, que foi financiado colaborativamente através de uma campanha no Indiegogo, teve parte dos recursos recebidos doados diretamente aos adolescentes, para comprarem máquinas de costura e continuarem com sua linha de roupas.

Agora que estão mais velhos, Tray e outros líderes da Check it tentam deixar a vida de violência para trás. Tray já deixou o grupo completamente, tem participado de cursos e treinamentos e se prepara para entrar na universidade. Ele, que pensa em estudar Artes Cênicas ou Direito, também orienta outros jovens negros LGBTs que são vítimas dos mesmos tipos de violência que ele já enfrentou.

As enormes consequências psicológicas, emocionais e sociais do racismo e da LGBTfobia também determinam que papéis as pessoas negras vão desenvolver na sociedade. Pessoas vítimas de violência sistêmica, como é o caso de pessoas negras LGBTs, tendem a entrar em depressão profunda, se suicidar ou reproduzir o tipo de violência que sofrem de alguma maneira. São as primeiras e mais frequentes vítimas de todo um profundo ciclo de violência que a sociedade produz. O caso da Check It dos EUA é bastante parecido com o mundo de violência que afeta LGBTs negros e negras no Brasil e que se reproduz de baixo de nossos olhos como se fossem casos invisíveis.

“O documentário pode parecer tocar num assunto de nicho, mas o que ele pretende fazer é quebrar preconceitos e lançar luz sobre histórias de esperança e resistência encontradas em um dos lugares menos prováveis. Além disso, trata-se de re-escrever uma narrativa do que significa ser jovem, negro e LGBT na cidade”, diz análise do portal Colletivelly.

Curta a página do documentário no Facebook e acompanhe o projeto.

Assista ao trailer do documentário abaixo:

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Robin Batista
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Robin Batista é designer, editor do Afroguerrilha e colaborador da AFROPUNK.

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