Foto: Gabriel Wickbold O mito da brasilidade: ser negro nascido no Brasil te torna um “brasileiro”?

O mito da brasilidade: ser negro nascido no Brasil te torna um “brasileiro”?

O mito da brasilidade

O mito da democracia racial nos atrapalha e muito. Mas eu acho que nada nos atrapalha mais que o mito da “brasilidade” (que tem relação com o primeiro. Na verdade eu acho que é o pai dele). Depois de enfrentar as afirmações costumeiras de que não existia racismo no Brasil e vivíamos numa democracia racial, penso que uma das tarefas daqui pra frente é enfrentar o grande mito da brasilidade.

Passamos 90% da história do país sem sermos considerados brasileiros. A independência do país veio e nós permanecemos escravos. A bandeira nacional tem o lema de um racista francês de marca maior. O estado brasileiro foi o que mais escravizou nosso povo. Até o hino, que a gente presta reverência e se emociona e bla bla bla… foi composto enquanto ainda estávamos atados em correntes. Mesmo assim, toda a manipulação ideológica fez com que hoje negros conscientes de sua história defendam uma nacionalidade imposta e lutem pela integração nacional e por nossa integração na “nação”. Isso vai do militante novo às nossas principais referências. Isso é louco.

Certos estavam os quilombolas, que, ao invés de reclamarem um lugar na casa grande, construíram pedacinhos de África pelas bandas de cá. Muito mais ousados que nós, ao invés de “ocupar” os espaços brancos, criaram poderes paralelos. Estados dentro do estado. Ninguém se reivindicava brasileiro, não.

Ainda há o argumento de “nós somos brasileiros sim porque construímos esse país”. Sinceramente? Nada mais sádico. Construímos o país na base do chicote! Ninguém queria estar aqui, ninguém veio por vontade própria, ninguém veio a passeio – e sempre que podíamos, fugíamos.

Há que se enfrentar o monstro da brasilidade. “Somos todos brasileiros” é o novo “somos todos iguais”. Quem tem medo de romper com o país que nos mata desde que o primeiro africano chegou aqui?

Por Anin Urasse. Publicado originalmente no blog Pensamentos Mulheristas

Identidade negra-brasileira e o mito da democracia racial

Não adianta citar o Mito da Democracia Racial no seu discurso se você não compreende que a formação da identidade negra-brasileira é justamente a materialização desse conceito. Afinal, o que há por trás da afirmação orgulhosa “sou brasileiro(a)”, senão a aceitação de que nossa história teria começado na escravização?

Você sabia que a legislação brasileira garante nacionalidade estrangeira aos filhos de estrangeiros que estão a serviço do seu país, mesmo que eles tenham nascido aqui? Se não há um único critério para estabelecer nacionalidade, por que aos descendentes de africanos que foram SEQUESTRADOS de sua terra não se aplica o critério jus sanguinis (de acordo com sua ascendência) e sim jus sóli (de acordo com local de nascimento)?

Curioso né? Vejamos:

“Os países que adotaram o critério jus soli adotaram em virtude da colonização. São, em geral, os que estão “deste lado” do Atlântico. Estados Unidos, Brasil, Canadá e outros que receberam levas de imigrantes e precisavam de gente para formar uma identidade. Queriam que os filhos ali nascidos tivessem identidade com o país que os colonizou.

O critério jus sanguinis é justamente o contrário: É o típico de países dos quais as pessoas saíram. Europa, em particular. Esses países tinham o interesse de que aquele vínculo do egresso fosse mantido; que subsistisse o vínculo com a cultura europeia […] O ser humano não sobrevive sem laços de identidade.” [1]

Acho que deu pra entender: se você é negro, em qualquer lugar do mundo, então você é um africano.

Por Nativah de Sabá, publicado aqui.


Referências:

[1]: http://notasdeaula.org/dir10/direito_int_privado_13-04-12.html

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