Cena da série "Black-ish" Como aprendi a falar inglês por conta própria

Como aprendi a falar inglês por conta própria

Por Robin Batista (@robinbatista_)

Comecei a estudar inglês por conta própria aos 18 anos de idade (em 2008). Minha família, como a maioria das famílias negras, não podia me pagar um curso de inglês, então o jeito foi me virar e aprender praticamente sozinho, em uma época em que o YouTube estava engatinhando e nem imaginava que um dia existiriam tantos tutoriais em vídeo sobre tantas coisas (inclusive de idiomas) e de graça.

Falar inglês tem me aberto portas e dado várias oportunidades na vida, tanto profissionalmente quantos nos meus relacionamentos. Inclusive, é através do inglês que hoje eu estudo a língua coreana, também de forma autodidata. Falando uma língua gringa e já estudando outra, quero compartilhar com vocês algumas dicas que hoje vejo que me ajudaram muito a aprender sem ter que pagar por um curso.

1 – Não queira só aprender inglês. Tenha um objetivo maior que isso.

Eu nunca quis aprender inglês. Quando comecei a estudar, eu odiava a língua inglesa, achava feia, estranha e irritante. Mas em 2008, quando o Myspace era a rede social mais usada do mundo, eu senti a necessidade de aprender porque só tinha gringo por lá. Eu adicionava muita gente que tinha interesses em comum comigo. Nisso, para conversar com essas pessoas, eu traduzia algumas coisas no Google Tradutor, procurava frases específicas na internet e fazia questão de usar toda frase ou palavra nova que aprendia. Foi o inglês mais enrolado da minha vida, mas funcionava! Então essa é a chave: eu não queria aprender inglês, meu objetivo era poder conversar com as pessoas, e para isso eu comecei a estudar a língua sem nem perceber. Portanto, tenha em mente quais são seus objetivos e use o idioma como ferramenta, como meio que pode te levar a algum lugar, não como o ponto de chegada. Estudar algo só por estudar se torna facilmente entediante.

2 – Contextualize seus estudos.

O vocabulário que você precisa aprender, as expressões e gírias, questões gramaticais e culturais relacionadas a língua, tudo isso vai depender dos seus objetivos e interesses. Esse “inglês padrão” ensinado na maioria das escolas brasileiras é o inglês falado em bairros de maioria branca nos EUA ou Reino Unido. Na hora de escrever um currículo ou falar formalmente em ambiente de trabalho, até pode ser tudo igual. Mas no dia-a-dia, tudo pode mudar. Não existem só brancos ou cultura branca no mundo. Se você quer encontrar um emprego,, aprenda o inglês mais usado em ambientes profissionais e mais próximo do “padrão”. Mas se seu objetivo é só visitar bairros e cidades negras dos EUA, busque conhecer as variações gramaticais, fonéticas e culturais dessas regiões. Se sua única referência de inglês é o seriado Friends, em um bairro negro ou latino você não vai conseguir se comunicar tão bem.

Contextualize seu vocabulário de acordo com seus interesses: se você só quer fazer amizades, arrumar um trampo, encontrar um amor gringo, etc… Afinal, seu vocabulário deve servir as suas necessidades. Ah, quer visitar a África? 21 países africanos têm a língua inglesa como língua oficial ou franca e cada país tem vocabulário e expressões próprias que você nunca vai aprender estudando o “inglês padrão” falado pelos brancos nos EUA. Resumindo: dê mais atenção para aquilo que tem a ver com seus objetivos, mesmo estudando inglês de forma abrangente!

3 – Recursos físicos e digitais de graça.

Quando comecei a estudar inglês, não existiam todos esses apps e canais incríveis de idiomas no YouTube. Hoje, além de apps e canais de vídeo, todo conteúdo é feito especificamente para o ambiente digital e, por isso, é mais fácil de ser usado. Além das aulas em vídeo, hoje também é muito mais fácil o acesso a muitas séries legais para aprender, inclusive séries com Black English (ou Ebonics), inglês falado na comunidade negra dos EUA (vamos falar sobre isso em outro post).

Se você não tem internet em casa, você pode pegar livros e apostilas de inglês emprestados para estudar. Os livros me permitiam entender mais a estrutura da língua (gramática, etc), e isso me ajudou bastante a evoluir minha escrita e leitura, enquanto eu aprendia mais sobre pronúncia e conversação na internet, em conteúdo mais avulso. Em bibliotecas públicas você pode encontrar material físico de graça para estudar.

Obs: Para que esse post não fique muito longo, em breve vamos fazer outro post indicando diversos recursos e materiais gratuitos na internet que você pode usar para aprender seguindo essas dicas.

4 – Conecte-se com o mundo.

Se você quer aprender qualquer idioma, você tem que se rodear de pessoas que falam esse idioma como língua nativa (mesmo que você não possa visitar outro país). Hoje isso é muito possível com as redes sociais. Uma dica é você explorar mais as redes sociais que você usa (como Facebook, Instagram, YouTube) e adicionar pessoas que têm interesses em comum com você.

Você pode encontrar pessoas que comentam em páginas gringas que você curte, por exemplo. Use seu inglês basicão/embromation (ou traduza algo no Google) dizendo a essa pessoa por que você a adicionou e comece a conversar. É simples. Se a pessoa não te aceitar ou se sentir incomodada, apenas respeite, peça desculpas e parta para a próxima. Tenho grandes amizades dos EUA, Europa, África e Coréia que começaram assim, inclusive pessoas que já vieram me visitar no Brasil depois de nos conhecermos aleatoriamente nas redes sociais.

5 – Errar é parte fundamental.

Se você não está errando em nada, é porque está acomodado no que já sabe e não experimenta avançar por áreas que ainda não conhece. No caso de quem está começando a aprender, buscar novidades e se arriscar a errar é fundamental. Então, não tenha nenhum medo de errar – isso é parte importante do processo de aprendizagem. Identifique seus erros sem neura e foque em corrigi-los.

Outra coisa: não ache que você precisa falar um inglês “perfeito” ou fluente para começar a usa-lo. O que é mais importante para você, falar perfeito com o espelho ou ter um inglês mediano, mas que já te possibilita conversar com as pessoas do mundo todo? Melhorar seu inglês requer prática e você não pode esperar ter um inglês “perfeito” para começar a praticar. A gente começa do zero mesmo.

6 – Rodeie-se de estudantes melhores que você.

Uma vez ouvi esta frase por aí: “você é a média das cinco pessoas com as quais você mais convive”. É um clichezão, mas é real. Todo ser humano acaba se adaptando, de alguma forma, ao comportamento e cultura das pessoas com quem convive, do seu grupo social.

Quer aprender um idioma? Se aproxime de outros estudantes do mesmo idioma e passe mais tempo com eles, chama pro rolê ou pra estudar junto. Se eles forem de nível maior que o seu, melhor ainda, já que vão poder te ajudar a melhorar naquilo em que você ainda não é tão bom.

Obs: Tem grana para pagar um curso e sente necessidade? Experimente.

O fato de eu ter aprendido a falar inglês sem nunca ter pisado em uma escola de idiomas não significa que essas escolas são inúteis. Aprendizado é uma coisa muito pessoal e algumas pessoas podem não conseguir se guiar sozinhas no universo de um outro idioma sem ter uma orientação inicial ou num determinado estágio. Então tente seguir os passos acima e, se sentir muita dificuldade no começo ou em determinado nível, procure orientação de uma escola ou professor. Mas não deixe te tentar desbloquear seu potencial criativo para aprender coisas por sí mesmo (mesmo se estiver em uma escola).

Uma escola de inglês muito bacana com professores negros e voltada para estudantes negros é a Ebony English (clique aqui). E isso nem é propaganda. Cito aqui porque é a única escola negra de idiomas que conheço em São Paulo ou no Brasil. Se você souber de outras, indique nos comentários e eu incluo aqui.

Bora estudar?

Me diga nos comentários o que você achou dessas dicas e, se também aprendeu de forma autodidata e também tem dicas, compartilha com a gente! To no Insta como @robinbatista_ e no Facebook.

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Robin Batista é designer, editor do Afroguerrilha e colaborador da AFROPUNK.

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3 Comments

  1. Larissa Isis
    janeiro 22, 20:41 Reply

    Sim, boas dicas mas não concordo muito com a 2. Acho maneiro e importante falar de acordo com o “público alvo”mas acho importante saber antes o que é.. isso pq, é claro que cada cultura tem suas gírias mas o princípio é um só. sei lá/…

  2. Aline
    fevereiro 22, 12:01 Reply

    Gostei muito do seu post e partilhei com amigas e amigos. O interesse pelo inglês surgiu mais enfaticamente por meio do estudo da filosofia africana (faço pós em filosofia pesquisando filosofia africana) que tem sua bibliografia mais centrada no inglês e francês. Também aprendi e aprendo de modo autodidata porque meus pais não tinham dinheiro, nem eu. Me senti muito contemplada por sua escrita e concordo sim que nós pessoas negras aprende inglês com as/os afro-americanas e afro-americanos, bem como as/os africanas e africanos que tem o inglês como sua língua. Não sei o que acontece, mas quando assisto palestras da Chimamanda Adichie bem como da bell hooks entendo tudo e me sinto very happy!!!!

  3. anabetune
    abril 26, 08:15 Reply

    Dicas muito bacanas! Principalmente a primeira. Fundamental.

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