Designer sul-africano Inga Gubeka Onde estão os designers negros no Brasil?

Onde estão os designers negros no Brasil?

Mesmo que tardiamente, as diversas áreas do design tem ganhado cada vez mais atenção no Brasil. Não só sobre a economia, cultura e comportamento, mas sobre a vida como um todo, o design exerce uma influência significativa que acaba orientando a forma como as pessoas enxergam o mundo e constroem suas relações sociais, e cria narrativas que tentam dar sentidos a realidade que essas pessoas vivem.

Sendo o design um espaço e atividade de poder, cabe a pergunta: onde estão os designers negros e negras?

Para responder a essa pergunta, nós do coletivo Afroguerrilha estamos fazendo a pesquisa “Mapeamento de Designers Negrxs | BR”, que tem o objetivo de descobrir estudantes e/ou profissionais do design negras e negros de todo o Brasil, facilitar encontros físicos e virtuais, promover estudos em design com base em teóricos e referências africanas do continente e da diáspora, além de fazer conexão de designers com afro-empreendedores do país.

A iniciativa partiu do fato de que no currículo dos cursos universitários de design no Brasil praticamente não existem teóricos e designers negros. Se aparecer algum negro, dão um jeito de negar sua negritude ou ignora-la. É como se não vivêssemos em um país que teve quase 400 anos de escravidão do povo africano e que continua sendo o mesmo país de estrutura social, política e econômica racista de 500 anos atrás. É como se negros não existissem, seja porque não estão no design, seja porque, quando estão, é obrigatório esquecer que eles são negros. Por isso, pensamos em reunir designers num encontro para trocar ideias, conhecer pessoas e colocar essa discussão entre nós.

Somos todos iguais?

É aí que jogam na mesa a carta do “somos todos iguais”. As estruturas raciais do período da escravidão continuam intactas. O povo branco, mesmo sendo minoria, continua tendo o poder político, econômico e social em suas mãos e se beneficiam até hoje desses 400 anos de escravidão. Nós, negras e negros, só herdamos o pior, como miséria econômica, discriminação social e estética e violência de Estado, para apenas ficar em alguns pontos. Não temos as mesmas oportunidades, nem as mesmas condições, portanto não somos nada iguais. Ou seja, é óbvio que é muito difícil para a maioria das pessoas negras ter acesso aos cursos universitários de design ou alcançar boas posições no mercado. Isso torna essa discussão absolutamente importante.

Uma perspectiva africana.

Mas, para além de ficar apenas nessas questões que envolvem o racismo na sua superfície mais visível, um dos objetivos mais importantes desse mapeamento é, conseguindo estabelecer grupos de estudo, construir uma crítica do design e da história do design através de uma perspectiva africana. Ou seja, não basta ter designers negros, é preciso questionar a história do design que nos foi contada a partir de narrativas brancas e buscar as nossas próprias referências históricas. Nós negros não surgimos do nada no pós-abolição. Somos o mesmo povo africano que foi sequestrado da África, violentado e escravizado aqui, e cujos saberes e culturas sofreram um violento apagamento. Fazer uma crítica do design ou de qualquer narrativa construída pelo olhar branco, passa por resgatar quem nós somos e os saberes da nossa ancestralidade que foram e são tão violentados pela branquitude.

Esse tipo de de produção material e simbólica que os brancos chamaram de design partiu de onde? Será que tem origem na sociedade europeia ou eles “beberam” ou tomaram os conceitos que dão origem ao design de algum outro lugar? Como os povos africanos entendiam a imagem, o vestuário, o objeto, a interface? Essas são algumas das perguntas que esperamos poder discutir em nossos encontros.

Responda ao questionário!

Se você ainda não respondeu, clique no link ou direto no formulário abaixo:

https://goo.gl/forms/LEunP55hw01X4YLy1

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Robin Batista
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Robin Batista é designer, editor do Afroguerrilha e colaborador da AFROPUNK.

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2 Comments

  1. Wendel Anthuny
    fevereiro 02, 12:52 Reply

    Sou estudante de design, negro e de cara adorei a iniciativa! Esse mapeamento é importantíssimo!
    Gostaria muito de colaborar mas o Google Forms diz que não estão mais aceitando respostas. Vocês ainda pretendem dar continuidade à pesquisa? Agradeço desde já!
    Obrigado.

    • Afroguerrilha
      fevereiro 08, 22:57 Reply

      Olá Wendel. Não aceitamos mais respostas ao formulário. Mas em breve vamos publicar os dados coletados. Acompanhe nosso site e página no Facebook para ficar sabendo.

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