Em homenagem à minha avó, que faria 75 anos hoje, Dia da Consciência Preta

Em homenagem à minha avó, que faria 75 anos hoje, Dia da Consciência Preta

“Dirce”

Por Tiago Xis.

Uma homenagem à minha avó, Dirce, que completaria 75 anos hoje, no dia da Consciência Preta, caso estivesse viva. A crônica tem também como finalidade, afirmar a existência do racismo estrutural e romper com a falácia de que o racismo se resume estritamente a relações interpessoais.


Numa tarde invernal, ele andava na metrópole. Cidade de concreto. Os prédios se elevavam, ao passo que o fim era ocultado pelo sol e seu clarão. Parou numa banca. Jornais, panfletos e revistas dispostos. Tendências da moda e as últimas inovações tecnológicas. Consumo. Um lugar diferente de tudo já visto, descoberta para o menino. Precisava sair desse lugar hostil, a atmosfera urbana o incomodava. Trânsito, buzinas, conversas cá e lá, chamados de mercadores daqui e dali. Mas o que mais o perturbava não era o ambiente caótico, e sim as pessoas.

Seguindo a caminhada, reparava nos transeuntes com quem cruzava, mulheres brancas de meia idade era o padrão que imperava na travessia da avenida. No entanto uma delas tornou-se alvo de sua observação e detalhismo. Uma senhora que não aparentava ser muito velha, as cirurgias e tratamentos estéticos devem tê-la conservado. Branca, loira, de olhos claros, ostentava vestes escuras e jóias realçadas pelo dourado delas. Em seu antebraço, uma bolsa leve que parecia ser de alguma grife européia, a qual o menino havia visto na capa d’uma revista anteriormente. Na mão, um celular idêntico ao notado no outdoor ao fim da avenida. Mas o que mais se destacava era o rosto pálido e frio. O olhar de nojo e superioridade fulminava em direção da cabeça aos pés e chinelos. O celular já estava na bolsa, e a bolsa já estava agarrada a cintura.


D’outro lado do mapa e um pouco mais tarde, a rua estava calma, o trânsito dissipado, o caos já havia se perdido no centro daquela cidade. O menino esperava, pensativo, o ônibus de volta a casa, quando avistou uma senhora. Dessa vez, não ostentava grifes e jóias. Era vestida por um casaco cinza, um cachecol escuro e uma saia reta. Envelhecida pela natureza do tempo, negra, baixa e de costas maltratadas pela má postura. — O menino a relacionava com sua falecida avó, detentora de costas parecidas, fruto de trabalho contínuo na máquina de costura, única fonte de renda familiar.- Acomodada no banco de fora da farmácia, segurava duas sacolas sob seu colo. Uma, pequena e leve, continha medicamentos; outra, grande e pesada. A distância via-se um brinquedo. Estava certo, era uma boneca grande de plástico. Deduziu que fosse um presente a neta ou bisneta. O olhar dessa senhora era diferente, cansado, transmitia exaustão ao encarar o horizonte, outrora orgulho e um curto sorriso ao olhar para caixa do brinquedo. Notava-se que o dia havia sido de sacrifícios.


O menino embarcava em seu ônibus. “Boa noite, motô”, enquanto passava pela catraca, seguido d’um último olhar lacrimejante a senhora. Com nego drama tocando em seus fones, reflexões e mais reflexões o dominavam.

Enfim, se durante a tarde o menino estava na metrópole, à noite estava na colônia, e ele não era o sinhô.


Moral da estória:

1 — Toda discrepância social e econômica entre os personagens do caso para compreendermos, por mais que superficialmente, que o racismo estrutural não morreu com Isabel, “A Abolicionista” ou Dom Pedro, “O Monarca Independente”.

2 — Enquanto a sinhá da Oscar Freire colhia os frutos da escravidão, a Preta da farmácia popular colhia os espinhos.

3 — Toda essa subjetividade para dizer que o menino sou eu. Não esperem sorrisos e ajuda minha à sinhá que dá rolê na metrópole, meu apoio e amor vão pra Preta alforriada que sobrevive em meio a essa babilônia.

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