5 jovens negros fuzilados por policiais. Quanto vale uma vida negra no Brasil?

5 jovens negros fuzilados por policiais. Quanto vale uma vida negra no Brasil?

* Escrito por Robin Batista para o AFROPUNK e publicado originalmente em inglês aqui.

Na última semana, mais 5 jovens negros foram brutalmente fuzilados dentro de um carro com 111 tiros pela Polícia Militar no Rio de Janeiro, Brasil. Eles eram Wilton, 20, Wesley, 25, Roberto, 16, Cleiton, 18, e Carlos Eduardo, 16. De acordo com suas famílias e testemunhas, eles estavam indo fazer um lanche para comemorar o primeiro salário de Roberto como Jovem Aprendiz, quando foram surpreendidos por policiais militares que abriram fogo contra seu carro com 111 tiros sem que eles pudessem se proteger. Isso não tem outro nome senão “fuzilamento terrorista”. Mas, diferentemente das vítimas dos atentados em Paris, dos tiroteios nos EUA ou de qualquer matança generalizada que ocorra nos países de primeiro mundo, a opinião pública brasileira e nossa imprensa não acham que eles mereçam a mesma atenção. Afinal, são vidas negras.

Mais de cem anos passados do fim oficial da escravidão, o povo negro no Brasil nunca se livrou de sofrer um genocídio que se torna cada vez mais latente, abrangente e profundo no país com a maior população negra do mundo, fora da África. Segundo dados da Anistia Internacional, 30 mil jovens são assassinados por ano no país e 77% deles são negros. Apenas menos de 8% dos casos são julgados. Isso mostra que, baseado em uma cultura de violência que, na maioria das vezes, só encontra pessoas negras, matar um negro significa sempre matar uma vida insignificante e de menos valor, levando em conta os pronunciamentos oficiais das autoridades públicas ou a quase inexistente reação pública a chacinas tão usuais como essa. E o que acontece após episódios como esses? Nada. Matar pessoas negras no Brasil, especialmente jovens garotos, faz parte da normalidade nesse país.

Porquê não existe uma grande revolta negra no Brasil?

Essa apatia pública diante do genocídio da população negra no Brasil, carregada de uma evidente aceitação de nossa morte, causa estranheza em quem se dá conta de que mais da metade da população brasileira é negra. Então, por que não nos revoltamos contra isso? O fato é que nós estamos afastados dos espaços de poder, estamos afastados do centro da política, estamos afastados dos direitos sociais, civis e humanos mais básicos. Na sociedade brasileira, nosso grito vale menos que o sussurro de um homem branco. E, mais importante de tudo, a maioria das pessoas negras no Brasil estão afastadas de sua história e de sua própria identidade.

Por não conhecer minimamente a história do sistema de escravidão mais longevo da América, o brasileiro, o povo negro não relaciona seu genocídio e sua condição de rebaixamento social  com tudo o que aconteceu no passado. Nem mesmo chama isso de genocídio, dado que isso sempre foi naturalizado. A maioria dos negros no brasil nem se reconhece como negro, o que tem implicâncias sociais e políticas profundas e é uma herança de um sistema racista que sempre separou o povo negro a partir de seu tons de pele, misturas étnicas e outras classificações na tentativa de impossibilitar a existência de vínculos mais profundos entre os negros que formassem uma comunidade sociopolítica negra na luta contra o racismo cotidiano e estrutural de nossa sociedade. Logo, quando um negro não se reconhece como negro, ele também não reconhecerá como racismo a opressão que ele sofre cotidianamente de forma tão brutal.

Protestos contra o genocídio negro no Brasil.

Mas nosso grito começa a ganhar alguma força. Cada vez mais negras e negros afirmam sua identidade afrobrasileira e sua história e adquirem o que chamamos no Brasil de “consciência negra” – saber de onde viemos, por que e como viemos, por que vivemos uma vida marginalizada e como nos libertar. Isso quer dizer adquirir a consciência política do que significa ser negro em uma sociedade racista como a nossa.

Em protesto contra a morte dos 5 jovens que foram brutalmente assassinados por serem negros, ocorreram nessa última semana protestos em cidades brasileiras como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Campinas e Brasília. A maioria dos protestos não foram massivos, mas o que importa, nesse momento, é que eles ocorreram. Hoje, ao invés de serem poucos lutadores utópicos contra o racismo no Brasil, eles são o sinal de que o despertar de uma consciência negra no Brasil está ganhando, cada dia, mais corpo e força.

A elite branca de nosso país, desde os tempos da escravidão, sempre fez de tudo para nos separar. Tentou matar nossa identidade, nossa história e nossa cultura. O maior medo da elite brasileira, desde o Império, sempre foi que aqui ocorresse uma grande revolta negra que acaba se transformando em uma revolução que mudasse absolutamente tudo, por isso era preciso exterminar quaisquer traços que unissem a diversidade da negritude brasileira. Por isso, ver pessoas negras politizadas e conscientes de quem são é um perigo para nossa sociedade racista. Eles, que sempre nos disseram que somos a carne mais barata, tem medo de que nós descubramos e mostremos nosso valor. Eles sempre nos educaram para ser dóceis, servis e obedientes e nós nos mantivemos assim por um longo tempo.

Então, hoje eu desejo que nossa negritude volte a ser perigosa. E é este o momento em que não podemos parar.

Pelos 5 garotos negros assassinados. Pelos outros milhares de negros mortos pelo Estado. E por todas as negras e negros que nossa luta manterá vivos.

Vidas negras brasileiras importam!

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Robin Batista é designer, editor do Afroguerrilha e colaborador da AFROPUNK.

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